“A Inteligência Artificial vai alterar o cenário competitivo no Brasil”: Philipe Moura, da ABRIA

Philipe Moura, vice-presidente da ABRIA, apresentou um panorama da IA no Brasil e mostrou onde o país pode chegar, desde que com segurança jurídica e estabilidade regulatória.

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Sistemas de Inteligência Artificial (IA) que analisam um caso jurídico e acertam o desfecho da situação; ou recursos tecnológicos que analisam um exame médico e garantem se o paciente tem câncer ou não. Essas situações não são mais de filmes de ficção científica, já são a realidade de empresas brasileiras.

O Brasil tem 702 startups que trabalham com IA, sendo que 58,8% delas foram fundadas entre 2016 e 2020, segundo o Distrito Inteligência Artificial Report, do Distrito Dataminer e da KPMG. “É muito representativo esse crescimento. É uma combinação de sai na mídia porque tem tração, e tem tração porque sai na mídia”, diz Philipe Moura, vice-presidente de Políticas Públicas da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (ABRIA), comentando manchetes de jornais sobre esse e outros estudos.

Em entrevista à DPL News, ele afirma que tem aumentado não só o número de startups, mas também a quantidade de investimento, a adoção, a produção e até mesmo o número de pessoas interessadas no tema.

Quanto à atuação dessas startups, os principais setores atendidos são mídia e entretenimento, setor imobiliário, serviço financeiro e recursos humanos. Já as funções mais importantes para esses setores são sistema de recomendação, AI as a service e chatbots, por exemplo. “O que mais cresceu nos últimos anos, em termos de número de startups, foi de sistema de recomendação”, acrescenta.

Essas soluções são usadas nas redes sociais, em entretenimento, como nas plataformas de streaming de vídeo, em SportsTech, entre outras aplicações.

Em relação à adoção dessas tecnologias, Moura afirma que um pouco mais de 90% das startups brasileiras trabalham no segmento B2B. Para exemplificar, se pensarmos no sistema de recomendação, é outra empresa que utiliza esse serviço para atender o consumidor final.

Ou seja, apenas para o usuário, a utilização de IA ainda não é significativa – pelo menos não de forma direta – mas o executivo é otimista: “O fato de que esse número ainda representa pouco menos de 10% significa que há um potencial muito grande de adoção por parte do consumidor final.”

Alguns exemplos de IA para os usuários são robôs domésticos, dispositivos wearable para saúde e automação de casas.

Futuro

A tendência de IA, segundo Moura, se resume em novas soluções, novas startups e aceleração do ritmo de investimento no país na era pós-Covid. “Nas empresas, haverá novas competências organizacionais e o uso cada vez mais amplo de IA. No governo, a IA deve sair do uso de tecnologia experimental para ser uma tecnologia aplicada, isso quer dizer que ela vai estar mais difundida”, explica Moura.

“Em resumo, a gente entende que a IA vai alterar o cenário competitivo no Brasil. Este é o tamanho do impacto que a IA pode ter.”

Um estudo da Microsoft do final do ano passado mostrou que o uso da IA pode adicionar até 4,2 pontos percentuais no PIB brasileiro até 2030. No mínimo, o incremento seria de 1,8 ponto percentual.

Como chegar lá?

Quando se fala em potencial de uma tecnologia, as perspectivas costumam ser deslumbrantes. Mas o que deve ser feito para um país chegar lá? “Segurança jurídica e estabilidade regulatória. Essas duas coisas atraem investimentos”, afirma Moura.

“O governo também pode ser um grande impulsionador da IA na medida em que ele compra, desenvolve e usa IA tanto nos processos internos quanto nos serviços para a população”, explica.

Nesse sentido, pode-se dizer que o Brasil está trabalhando para estimular a tecnologia, principalmente por meio de regulamentação. Recentemente, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 21/2020, que regulamenta o uso de IA. E o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações lançou a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA) neste ano, para apoiar o desenvolvimento de soluções em IA. A ABRIA atua junto ao governo por meio da coordenação do eixo 8 da EBIA, que discute a Aplicação no Poder Público.

Outra necessidade para o setor é a formação de cientistas de dados. “A demanda é muito superior à oferta. E a demanda é global”, comenta. “Se você é um cientista de dados formado ou até se você tem um cursinho online, uma empresa americana pode te contratar. Nós temos a fuga de cérebros sem que os profissionais precisem sair do país.” A associação entende que é necessário formar mão de obra qualificada rapidamente.