Brasil seleciona organização social de semicondutores enquanto fecha empresa nacional da mesma área

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações vai escolher uma entidade para ficar responsável por pesquisa e desenvolvimento na área de microeletrônica.

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O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) realizou uma audiência pública na semana passada para colher contribuições sobre a escolha de uma Organização Social (OS) de semicondutores para o Brasil. O movimento se dá ao mesmo tempo em que o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (CEITEC), empresa estatal de semicondutores ligada ao MCTI, está sendo liquidado.

A OS ficará responsável pelas atividades de pesquisa, desenvolvimento e extensão tecnológica na área de semicondutores, formação de recursos humanos e disseminação do conhecimento e geração de empreendimentos de base tecnológica.

“Essa audiência representa o esforço do MCTI para a manutenção dessas tecnologias e desse conhecimento no Brasil e também para a continuidade da preparação de profissionais para o setor”, afirmou o ministro Marcos Pontes.

No entanto, o Brasil tem uma empresa desde 2008 especializada na produção de semicondutores, o CEITEC. A companhia é a única na América Latina que desenvolve, fabrica chips e atua no pós-processamento de wafers de maneira independente, e está em processo de liquidação.

Durante a audiência, foi informado que a operação do MCTI pretende preservar e fazer avançar o conhecimento acumulado ao longo dos anos, possibilitado pelo CEITEC. Além disso, o ministério espera que a sala-limpa da empresa possa ser utilizada pela OS. 

A sala-limpa é a instalação mais valiosa do CEITEC, segundo o professor Sergio Bampi, do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e um dos responsáveis pela criação da companhia. “Hoje, se você for fazer uma nova sala-limpa do mesmo tamanho, você vai gastar R$ 800 milhões”, contou

O governo pretende vender o local e alugar, por exemplo, para a OS utilizar a instalação. “A ideia é que a entidade que assuma esse ativo tenha uma sala-limpa, que faça parceria ou tenha algum arranjo com quem adquirir a sala-limpa na liquidação”, disse José Gontijo, diretor de inovação do MCTI.

Na apresentação, o ministério informou que serão transmitidos seus bens intangíveis para a OS:  36 patentes de invenção, 3 modelos de utilidade, 11 registros de desenhos industriais, 5 registros de topologia de circuitos integrados, 8 projetos de microeletrônica, 15 projetos de P&D com empresas e instituições de ensino, além de licenças de software e ferramentas de projeto.

Para Bampi, a operação da OS do MCTI está atrasada. “A OS do MCTI poderá vir a operar muito tardiamente, sem condições de reverter as perdas de gente e de recursos que já estão em curso na liquidação operada pelo Ministério da Economia. Claramente, há um descompasso e divergência entre os dois ministérios. A liquidação avança a passos rápidos. A OS não”.

Liquidação do CEITEC

Paulo Gala, professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas, explica que o CEITEC ainda não tem expressão no mercado de semicondutores, mas é uma promessa na qual já foi investido mais de R$ 1 bilhão. Mesmo que a empresa represente prejuízo anual para o governo, ele não vê sentido na liquidação.

“A única maneira de se recuperar a quantidade de dinheiro que foi investido é fazer parceria com uma empresa privada, injetando mais dinheiro do próprio setor público ou vendendo a companhia”.

De acordo com o Ministério da Economia, o fechamento da estatal deve representar uma economia de R$ 70 milhões por ano.