Lições de Luiza Helena Trajano, a mulher mais influente do Brasil

A DPL News entrevistou a presidente do Conselho do Magazine Luiza para conhecer a personalidade por trás de parte do sucesso da companhia. Hoje, a rede é uma das mais agressivas do mundo digital e já comprou 22 empresas desde o início de 2020.

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Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho do Magazine Luiza, foi a única brasileira eleita uma das 100 pessoas mais influentes pela revista Time em setembro deste ano. Desde então, esta reportagem esperava uma brecha em sua agenda para conhecer a personalidade por trás de parte do sucesso da companhia. 

A rede de varejo abriu a primeira loja eletrônica em 1991, em um mix de criatividade e ousadia, para ajudar cidades do interior de São Paulo, segundo Trajano. A companhia inaugurou o site em 2001 e, hoje, é uma das redes mais agressivas do e-commerce. Desde o início de 2020, já comprou 22 empresas* para ampliar suas capacidades no mundo digital.

A estratégia tem dado resultado: de julho a setembro deste ano, as vendas online atingiram 10 bilhões de reais pela primeira vez em um trimestre, um crescimento de 22% sobre o mesmo período do ano anterior. Na comparação com o terceiro trimestre de 2019, antes da pandemia, as vendas pelos canais digitais do Magalu cresceram 204%, ou seja, mais que triplicaram em dois anos. Atualmente, a companhia é gerida pelo filho de Trajano, Frederico Trajano.

A DPL News conseguiu realizar a entrevista no dia 16 de novembro, quando a companhia completou 64 anos. A conversa começou com quase 1 hora de atraso porque, apesar de a conselheira estar com a agenda tranquila naquele dia, seus funcionários fizeram fila para falar com ela. 

O diálogo foi rápido, mas suficiente para tirar algumas lições do sucesso da empresa: abertura à novidade, ousadia e colaboração.

Leia a entrevista completa com Luiza Helena Trajano:

DPL News: O Magazine Luiza criou as primeiras lojas virtuais há quase 30 anos. Qual foi a motivação para a decisão naquela época?

Luiza Helena Trajano: Nós somos muito abertos ao novo. Nós somos do interior de São Paulo e, naquela época, o que acontecia? Tinha uma rede de lojas que era referência no Brasil, a Pernambucanas, e ela começou a fechar lojas nas cidades da minha região. Aí os prefeitos das cidades começaram a pedir para a gente colocar uma loja lá. Mas como você ia abrir uma loja, se estava fechando uma grande rede? A gente teve a ideia de colocar uma loja com um terço do tamanho, mas que não saísse do nosso propósito de valorizar a cidade. 

Na época, começaram a sair as primeiras coisas de eletrônico no mundo, aí a gente falou “o Magazine Luiza traz para a sua cidade a loja do ano 2000.” Era uma loja que não tinha produto exposto, tinha que gravar os produtos para o vendedor mostrar a geladeira, por exemplo, na fita de vídeo. E a gente entendia que a comunidade não podia se sentir lesada, que não estávamos dando valor. Então, a gente devolvia o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) à cidade, e trabalhamos muito com a comunidade em cursos de inglês, cursos de tecnologia, em um centro de promoção que a gente tinha nessas lojas. O único risco que nós corríamos de não dar certo era gerar uma falsa expectativa, de que levamos uma lojinha para lá. Então trabalhamos o marketing educativo para dizer que não ia ter uma loja grande, mas era uma loja moderna, que ia ajudar a cidade, e aí para cada público a gente fazia uma campanha. Para o público rural nós fizemos a fita cassete, aquelas pequenas, e, para o público da cidade, a gente fez a fita cassete de vídeo, que na época era muito usada. 

Quando abriu a loja, poderiam não gostar, mas não tinham a expectativa de que era uma coisa empurrada. E foi um sucesso, duas vezes case em Harvard, só que como tudo que você faz diferente, os primeiros três ou quatro anos não são fáceis.

Nós somos um dos poucos players no mundo que nascemos físico e entramos forte no digital sem largar o físico

DPL News: A rede continua se modernizando, inclusive com a compra de 22 empresas fortes no digital. A senhora pode comentar qual é o objetivo do Magalu no mundo digital?

Luiza Helena Trajano: A minha história sempre foi no balcão vendendo na loja física, mas, como a gente é muito aberto ao novo, em 2001 a gente criou o site, em 1991 criou a loja eletrônica. Nós somos um dos poucos players no mundo que nascemos físico e entramos forte no digital sem largar o físico, a gente monta mais de 100 lojas físicas por ano. Mas ela é multicanalidade, quer dizer, uma fala com a outra.

Hoje nós não somos mais uma loja de eletrodoméstico, nós somos um superapp, que tem de tudo

Hoje nós não somos mais uma loja de eletrodoméstico, nós somos um superapp, que tem de tudo. E todas essas últimas redes que nós compramos são para ser escola para o nosso marketplace, para a nossa equipe, ou para entregar mais rápido, no caso das empresas de alimentação. Compramos muitas de logística, entramos em moda, compramos uma rede de esporte… É para ter tudo o que o cliente quer em um só local. Se você analisar, é para reforçar esse superaplicativo.

Eu sou uma missionária da micro e pequena empresa

DPL News: O Magalu também ajuda pequenos empreendedores a passarem pela transformação digital, principalmente agora durante a pandemia. Qual é a motivação?

Luiza Helena Trajano: Eu sempre fui uma pessoa muito voltada para pequena e microempresa, não só porque eu fui pequena, mas eu aprendi que, no Brasil e em qualquer lugar do mundo, ela é a maior geradora de emprego. No Brasil, ela é responsável por 85% dos empregos formais e não formais, e 60% dos empregos [formais]. 

Quando saiu a pandemia, como eu lido com eles desde 1985 através do Sebrae, eu falei “puxa, vai sofrer muito micro e pequeno”. Então a gente ajudou o governo a fazer as medidas emergentes, que foram boas, mas tudo que sai muito em protocolo é difícil. Aí eu fui dar palestra sobre como era o fundo de garantia e como ficou, como eram as férias e como ficou… Eu sou uma missionária da micro e pequena empresa.

DPL News: O Magazine Luiza tem um programa de trainees para pessoas negras, a senhora faz parte do Grupo Mulheres do Brasil, e existem outras iniciativas de ESG (Governança Ambiental, Social e Corporativa). Eu gostaria de saber qual é a importância de apoiar essas pautas tanto para a senhora, quanto para a empresa.

Luiza Helena Trajano: A pessoa que apoiava as causas, fazia muito por missão, por propósito e porque gostava de fazer. Hoje, depois do ESG, ou a empresa entra ou ela está fora, porque quem está exigindo isso é o consumidor final. O Magazine Luiza está há 25 anos como uma das melhores empresas para trabalhar. No ano passado, voltou a ganhar o primeiro lugar para empresas acima de 1000 funcionários, e nós temos 45 mil. Eu estou há quatro anos seguidos como líder com melhor reputação do país, entre homens e mulheres. E a gente sempre investiu na área de equipe, treinamentos e valorização. 

Antes me perguntavam, como você me perguntou, e eu respondia: “É muito importante, eu me sinto bem, eu não envelheço..” Hoje eu respondo: ou entra ou fica de fora, depois que o mercado financeiro começou a ver que quem está cobrando é o consumidor final.

DPL News: O mundo dos negócios nem sempre é um ambiente fácil para as mulheres. O que a senhora diria para outras mulheres que estão tentando trilhar o caminho do empreendedorismo e da liderança?

Luiza Helena Trajano: Eu digo que as coisas mudam de ciclo, e elas tem que estar atenta a isso. O ciclo nunca esteve tão bom para nós mulheres. Teve a pandemia, em que as mulheres que foram violentadas sofreram mais, porque botou o agressor dentro de casa, muitas vezes com bebida, muitas vezes triste. Mas também foi provado que onde tem mais mulheres na política, ela foi muito mais valorizada. 

E a pandemia acelerou um processo das empresas saindo de mecânica para orgânica. As empresas eram muito mecânicas, você não podia falar que estava com o filho doente, mas agora você tem que ser orgânico como o vírus foi. E a mulher está muito mais preparada para ser orgânica do que o homem, mas acredito profundamente na junção masculino com o feminino.

Eu fico em vários lugares onde só tem eu de mulher e digo para os meus amigos homens que ainda é uma luta muito grande para a mulher ganhar igual, para a mulher ser ouvida. Mas, nesse momento, eu digo: vai firme. É o momento de fazer acontecer. É para sair do mundo de opiniões e de diagnóstico, e nós somos muito boas pra isso. Chegou o nosso momento.

DPL News: A senhora quer acrescentar alguma coisa?

Luiza Helena Trajano: Só quero dizer que o grupo Mulheres do Brasil hoje é o maior grupo político do mundo, totalmente apartidário. Nós estamos em todo o continente com mulheres brasileiras, quero convidar a entrar no nosso grupo. Já temos o grupo em vários países e eu quero convidar porque eu acho que através da sociedade civil organizada que nós vamos mudar o Brasil.

*O Magazine Luiza comprou o Estante Virtual, Hubsales, Betta, Canaltech, InLoco, Stoq, Aiqfome, GLF, Sinclog, ComSchool e Hub Fintech em 2020. Neste ano, adquiriu VipCommerce, Steal The Look, ToNoLucro, GrandChef, SmartHint, Jovem Nerd, Bit55, Plus Delivery, Juni, KaBum! e Sode.