Teles buscam geração própria de energia para fugir da alta conta de luz

Projetos de geração distribuída ajudam a blindar as empresas das bandeiras tarifárias, principalmente durante crises energéticas.

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A seca pela qual o Brasil passa hoje é acompanhada por uma crise energética, já que 63,8% da eletricidade do país é produzida por hidrelétricas. Quando os reservatórios estão baixos, o governo aciona as termelétricas para colaborarem na produção de energia, e os efeitos são sentidos rapidamente no bolso dos consumidores e das indústrias.

As operadoras de telecomunicações também sentem o preço de uma energia mais cara. Seja porque as termelétricas foram acionadas, seja porque as empresas tiveram que contar com seus geradores a diesel.

Esse problema não é novo: há 20 anos, o Brasil passou por uma grave crise energética devido a uma crise hídrica. Foi necessário racionamento de energia no país e o preço da conta de luz subiu, conforme contou à DPL News Luiz Francisco Perrone, consultor e ex-vice-presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Ele narra que, em 2001, as prestadoras de telecomunicações tiveram que intensificar a utilização do seu sistema de backup: “O que houve [em 2001] foi um aumento de custo. Foi preciso consumir muito mais diesel e instalar mais dispositivos de backup, seja por bateria, por equipamento solar ou grupo motor gerador.”

“Eu tenho impressão também, pela lembrança, de que o custo não foi repassado [para os consumidores], pelo menos não 100%”, mencionou. 

Se o preço não foi repassado em sua totalidade, as operadoras é que pagaram a conta. Desde então, o Brasil já passou por pelo menos mais uma crise hídrica e energética significativa, em 2015.

Claro

Foi quando a despesa com energia chegou à casa do bilhão é que a Claro tomou medidas drásticas, segundo Hamilton Pereira da Silva, diretor de infraestrutura. “Quando a gente se deparou com esse tipo de problema e deste tamanho, tivemos que ser agressivos na solução”, disse durante um evento virtual na semana passada.

A resposta da companhia foi partir para o mercado livre de energia, para sua operação de média tensão, e iniciar um projeto de geração distribuída com diversas fontes: eólica, solar, hídrica e biogás.

Atualmente, 52 usinas abastecem 40% da demanda de suas estruturas de baixa tensão, como torres de telefonia celular, fontes que abastecem a rede fixa e prédios, e vai chegar a 80% até julho do ano que vem. Pereira da Silva acrescentou que a iniciativa da Claro já blindou a operadora em relação às bandeiras tarifárias em 55%.

TIM

A TIM explica que, além de atender uma demanda por energia limpa, o preço foi importante para motivar seu sistema de geração própria. O investimento começou em 2017, quando a empresa implementou cinco Centrais de Geração Hidroelétrica.

Hoje, a operadora tem um total de 34 usinas de energia solar, hídrica e de biogás em operação e, até 2022, pretende chegar a 60 plantas com geração mensal de 38 gigawatts-hora. Isso seria suficiente para abastecer uma cidade com 150 mil habitantes. 

Segundo o comunicado enviado a esta reportagem, a meta é ter pelo menos 90% do consumo total de energia proveniente de fontes limpas até 2025. Em 2020, o percentual foi de 64%.

A empresa também utiliza fonte solar com placas fotovoltaicas para levar conexão 4G via satélite a áreas remotas, sem a necessidade de ligar à rede convencional de energia elétrica e utilizar cabos de fibra óptica.

Essas iniciativas se mostram ainda mais relevantes em um cenário de crise energética provocada pela seca, reduzindo a dependência de fontes ditas tradicionais, concluiu a operadora.

Outras operadoras

A Algar Telecom informou que está revisando todos os processos operacionais e de manutenção, buscando o aumento da autonomia dos sistemas de geração de energia dos sites e, possivelmente, antecipando CAPEX para possíveis casos de falha da energia da concessionária.

Procurada, a Vivo não se manifestou até o fechamento deste material.

Estação seca

No final de maio deste ano, o Sistema Nacional de Meteorologia emitiu um alerta de emergência hídrica devido à baixa precipitação na região hidrográfica da Bacia do Paraná, de maior capacidade e de maior demanda do país. O baixo nível de chuvas desde outubro de 2019 deve se intensificar até o final de setembro, quando a região estará no período de seca.

Em junho, o governo aprovou uma portaria permitindo acionar termelétricas sem contrato movidas a partir da queima de carvão, óleo diesel e biomassa. Antes, só era permitido ligar as termelétricas sem contrato movidas a gás natural. As usinas térmicas são mais poluentes e mais caras, o que resulta em bandeiras tarifárias na conta de luz.