Variedade de frequências e destinação para redes privadas, o grande legado do leilão 5G no Brasil: Nokia

Em entrevista com a DPL News, Wilson Cardoso, diretor de Tecnologia para América Latina da Nokia, falou sobre o leilão do 5G no Brasil e sobre as perspectivas da companhia para os próximos anos.

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Um estudo da Nokia com a Omdia de 2020 revelou que o 5G impactará até US$ 1,2 trilhão no Produto Interno Bruto do Brasil no período de 2021 até 2035. A revolução tecnológica poderá ser um dos motores de recuperação econômica do país no pós pandemia, principalmente para as áreas de Tecnologia, Informação e Comunicação (US$ 241 bilhões), Governo (US$ 189 bilhões) e Manufatura (US$ 181 bilhões).

Mas a quinta geração da rede móvel também traz expectativas para as companhias que devem implementar o 5G em grande escala no país. Em conversa com a DPL News, Wilson Cardoso, diretor de Tecnologia para América Latina da Nokia, falou sobre a perspectiva da companhia para os próximos anos e sobre o edital do 5G, aprovado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e em análise pelo Tribunal de Contas da União.

Para o executivo, a diversidade e a quantidade de bandas que serão licitadas são positivas. No entanto, ainda há dúvida quanto aos compromissos que as empresas vencedoras do leilão deverão assumir.

DPL News: Qual é a opinião da Nokia quanto às frequências que estão sendo disponibilizadas no edital do 5G?

Wilson Cardoso: O edital tem uma grande virtude que nós sempre defendemos na Nokia: ele deve conter frequências baixas, médias e altas.

As frequências baixas, principalmente em países como o Brasil, são fundamentais para garantir a cobertura. Quanto mais baixa a frequência, mais longe o sinal se propaga, isso possibilita que você atinja grandes áreas. O problema é que não tem muito desse espectro disponível, ele já é usado para outras aplicações.

Nas bandas médias, nós temos um pouco mais de abundância de frequências, tanto que temos o 2,3 GHz e o 3,5 GHz sendo licitados. O 3,5 GHz é fundamental porque praticamente todos os países que estão implantando a rede 5G estão usando essa banda. Isso nos dá uma grande disponibilidade no ecossistema de aparelhos terminais. 

Por último, nós temos as frequências milimétricas que se propõe como grande alternativa no futuro de médio e longo prazo, para dar grande capacidade de conexão. Com as ondas milimétricas nós podemos atingir gigabits por segundo de conectividade. 

A grande quantidade de blocos sendo licitados também possibilita ter 5G para todas as operadoras e prestadoras. A Nokia acredita que isso é bom para o mercado. 

A forma como as obrigações estão colocadas no edital, compensando um viés arrecadatório, é bem-vinda

DPL News: E quanto aos compromissos das empresas vencedoras do leilão?

Wilson Cardoso: A forma como as obrigações estão colocadas no edital, compensando um viés arrecadatório, é bem-vinda. Agora, se elas estão na medida correta ou não, isso é a própria economia que vai dizer. Como ainda não sabemos quanto as bandas vão custar, não posso responder se elas estão corretas ou não. 

Elas têm fundamento com o que o governo propôs, de estimular maior cobertura para as rodovias e para os corredores de exportação, por exemplo. Mas nós ainda não sabemos os valores mínimos que vão ser cobrados para cada um dos blocos.

DPL News: Qual legado o leilão do 5G brasileiro vai deixar para a América Latina?

Wilson Cardoso: Um bom exemplo é a diversidade dos blocos das bandas. Outro fator, que o leilão do Brasil traz por consequência, é a liberação de frequências para as redes privadas. Nós vamos ter frequência para redes privadas em 3,7 GHz ou 3,8 GHz. São as mesmas bandas usadas na Europa para esse tipo de rede, além das bandas milimétricas. Isso é um grande legado, um bom exemplo para toda América Latina seguir. 

Queremos ser o grande parceiro da indústria na introdução de 5G em todas as verticais, como agricultura, mineração e logística, e manter ou aumentar nossa posição no mercado de consumidores

DPL News: Quais são as expectativas da Nokia para o 5G no Brasil?

Wilson Cardoso: Nós queremos manter e aumentar nosso market share no mercado de consumidores, principalmente nas redes privadas. Temos a liderança nesse mercado hoje e queremos nos consolidar como especialistas.

Para isso, temos uma estratégia que não é somente criar e fornecer tecnologia, mas é cuidar desde a formação de mão de obra com nossos parceiros, como o SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), com quem estamos criando esse ambiente de desenvolvimento de pessoas.

É assim que queremos nos estruturar: ser o grande parceiro da indústria na introdução de 5G em todas as verticais, como agricultura, mineração e logística, e manter ou aumentar nossa posição no mercado de consumidores.

DPL News: Quais são as perspectivas das redes privadas no Brasil?

Wilson Cardoso: Imaginamos que há grandes empresas com capacidade, necessidade e vontade de ter sua rede privada. Até porque, muitas vezes, elas estão isoladas, como no caso de mineração ou uma plataforma de petróleo. Outra possibilidade é uma indústria que, por segurança, quer ter sua rede privada e tem capacidade de administrar. Estes modelos convivem muito bem no 5G.

O fundamental é que essas vias estejam todas interligadas. É muito importante que a rede privada dentro de uma fazenda esteja interligada com a rede que está na estrada, que é pública. Dessa forma, o caminhão de transporte da soja, por exemplo, será monitorado em todo o seu percurso.

A capacidade de interligar essas redes privadas com as redes públicas trará esse aumento de produtividade exponencial. É aí que nós teremos a transformação da sociedade numa sociedade digital.

Um dos desafios é trazer essa computação em nuvem para a borda, porque não adianta ter 5G e o data center ser fora do Brasil

DPL News: Quais são os principais desafios para a transformação digital no Brasil?

Quando falamos de 5G, estamos falando de computação em nuvem e, um dos desafios é trazer essa computação em nuvem para a borda, porque não adianta ter 5G e o data center ser fora do Brasil. É necessário trazer essa capacidade de processamento para mais perto do usuário para reduzir a latência.

Precisamos ter mão de obra capacitada no Brasil para criar esse ecossistema de 5G, porque a conectividade é uma coisa, mas os casos de uso também são fundamentais. O 5G vai passar a ligar milhões de dispositivos e precisamos garantir que esses dispositivos sejam seguros. Então é necessário ter pessoas qualificadas que saibam fazer uma análise de segurança e criem as aplicações. Essas são as grandes oportunidades que temos pela frente, criar esse entorno digital.